Tinha uma curiosidade que nunca estava em pousio e lhe iluminava os seus belos olhos verdes. Uns olhos que não tinham leitores, naquela aldeia de granito, onde a vida se encolhia, à espera que o sol dissipasse as nuvens da fome e da angústia. Abraçava um livro emprestado, como se fosse um urso de peluche e lia as imagens, há muito, no quarto adormecido, que partilhava com os irmãos, embora as palavras lhe roubassem o sono, por não conseguir desvendar os seus mistérios. Elas eram curvas apertadas que Mercedes queria transformar em amplas rectas. E olhava, insistentemente, os textos, tentando construir-lhes o sentido.
Porém, a vida insistia em apagar, como borracha cega, o seu amor ao conhecimento, embora não conseguisse extinguir a chama teimosa que ardia dentro dela. Para os pais arrancarem o sustento da terra, Mercedes ficava em casa, com os irmãos mais novos. Tinha onze anos e as suas asas cortadas doíam-lhe como fio de espada.
Por vezes, assomava à única janela da sua casa térrea, com um irmão, ainda bebé, ao colo. Ao avistar as crianças, cantarolando, com a sua mala de cartão, a caminho da escola, sentia dentro de si um grito lancinante de sirene. Mercedes não suportava a ideia de viver uma vida inteira sem saber ler nem escrever. Quando os irmãos já fossem crescidos, ela iria lutar contra o Impossível, na arena, lugar frágil e sedutor, onde haviam de germinar as promessas que fazia a si própria. Esta esperança lambia-lhe a cara e as mãos como cão fiel que nunca a abandonava. Um dia, havia de ser uma leitora campeã, mal cortasse a meta do seu sonho…
A escolaridade obrigatória e gratuita estava consagrada legalmente, desde 1835, mas a fome e outras causas continuavam a fomentar o abandono escolar, perante a indiferença de um sistema educativo que ignorava a equidade e a igualdade de oportunidades.
Mercedes continuava a pedir os livros que as outras crianças arrumavam no quarto, no fim do ano lectivo. E folheava-os com um espanto e um deslumbramento que jamais a abandonaram e que vieram, mais tarde, a transformar toda a sua vida.
- Ou agora ou nunca… - pensou ela, quando começou a funcionar, na sua aldeia, um curso de alfabetização de adultos. Tinha já quarenta anos, era solteira, os irmãos emigraram, os pais já tinham partido… E aquele sonho antigo varreu, finalmente, como um vulcão, todos os impossíveis. Conhecia o alfabeto e já soletrava palavras “difíceis”, mas isso era, obviamente, uma gota de água no oceano da sua sede.
Pouco depois, não havia magia que mais a surpreendesse e encantasse do que abrir um livro e tirar das suas entranhas … uma história. E quanto mais aprendia, mais o espanto se aprofundava e lhe rasgava novos horizontes. A sua ânsia de mais lutava contra o cansaço do dia-a-dia, para alimentar a estrela que tinha dentro de si e que reflectia a chuva que lhe caía atrás das pálpebras, mesmo com o cheiro da terra ali à mão, o canto das aves a encher o ar dos seus dias e um pôr-do-sol que a levava a ver mais longe e mais fundo. Ela era uma árvore que amava os barcos. E queria “aprender até morrer”.
Na fábrica de cerâmica, o trabalho era duro e mal pago, mas, aos poucos, os livros começaram a instalar-se, deliciosamente, em sua casa e a preencher a sua vida, mesmo quando regava a horta ou descascava batatas e cebolas, pois uma vizinha, que também não tivera infância, por vezes, lia para ela, naqueles momentos, arrastando-a para um mundo de infinita sedução que emitia uma luz própria.
Um dia, ouviu falar de Sócrates, na paragem do autocarro que a levava, diariamente, ao seu local de trabalho. E ficou emocionada, ao saber que aquele filósofo quis aprender uma ária com a flauta, enquanto lhe preparavam a cicuta. “Para que lhe servirá?” – perguntaram-lhe. – Para aprender esta ária antes de morrer … - respondeu, serenamente, Sócrates. Ao ouvir aquelas palavras, Mercedes respirou fundo o ar morno de Abril e foi para a fábrica, firmemente decidida a comprar o livro de que tinham falado: Fédon, de Platão. “Para aprender esta ária antes de morrer”… Estas palavras não lhe saíam da cabeça. Estava ansiosa por ler aquele livro. E se bem o pensou, melhor o fez. Comprou-o e leu-o, em poucos dias, embora tivesse tido muitas dificuldades na sua interpretação. Comoveu-se com as últimas horas de vida de Sócrates na prisão, com a sua serenidade perante a morte, o seu desprendimento das coisas terrenas, mas não tinha percebido bem os argumentos a favor da imortalidade da alma, os argumentos da reminiscência… E também deu muitas voltas à cabeça, a tentar decifrar a teoria das Ideias. Fez uma pesquisa e descobriu um autor que explicava aquela teoria lógica e metafísica com a Ideia da Galinha Ideal e da Galinha Real que “continua a esgaravatar, indiferente e sem saber que é uma cópia infiel da Ideia de uma Galinha que, para sua felicidade, não corre o risco de acabar numa panela”… Até tinha achado graça a esta interpretação. Cada vez mais, tinha consciência da sua própria ignorância, mas também do valor desta consciencialização, o que acirrava ainda mais a sua fome de conhecimento.
- Sócrates quis “aprender até morrer”. É tudo o que eu quero também! – disse às colegas, como se tivesse encontrado a fórmula da felicidade.
- E para que te servirá? – perguntaram elas, com um sorriso irónico.
- Há mais de dois mil e quatrocentos anos, fizeram a mesma pergunta a Sócrates – respondeu Mercedes, respirando fundo. – E como puderam condenar à morte um homem tão bom, tão justo e tão inteligente?!- desabafou, já sufocada pela areia daquele imenso deserto de cerâmica.
- Sei lá… Eu nem o conheci! E tenho mais que fazer… - respondeu uma colega, encolhendo os ombros com indiferença, enquanto removia, quase maquinalmente, algumas asperezas de um vaso, para o pintar com tintas acrílicas amarelo ouro e verde musgo.
Como os sonhos se perseguem até ao fim, quando a paixão ferve nas nossas entranhas, Mercedes, já aposentada, com uma modesta pensão da Segurança Social, acessou a Web, pela primeira vez. “Para aprender esta ária antes de morrer” … – murmurou, com as mãos a tremer, no momento em que aprendeu a ligar um computador.
Indiferente ao facto de viver numa sociedade que, aos sessenta anos, a considerava “idosa”, ela fez um curso de informática e começou a dar aulas a crianças, numa Organização Não Governamental (ONG). Não temia o novo. Desejava-o com todas as forças da sua alma inquieta.
Com uma túnica vermelha de um tecido que fazia lembrar as pétalas finas das papoilas que dançam nos trigais, Mercedes, feliz, rejuvenescida, acolheu de braços abertos os seus pequenos alunos. E, como este gesto amplia sempre o nosso espaço e o nosso coração, todos começaram por escutar os pássaros da pequena cidade, que saltavam de ramo em ramo e que, naquele momento, aprimoraram o seu canto.


Impecável, Amiga!
ResponderExcluirLeio-te sempre com renovado prazer.
Abs, anamerij
Parabéns pelo conto, bem escrito, conteúdo importante. Bem conseguido e oportuno.
ResponderExcluirMaria Zélia Baeta- BH
Caríssima Maria João:
ResponderExcluirGostei muito destes textos, tal como dos anteriores (que também li com interesse e de que não dei eco apenas por falta de tempo).
No conto, volto a identificar um estilo muito rico em imagens originais e muito expressivas. E, sobretudo, o amor pelos pobres e humildes a quem, nunca pode ser negada a esperança para além de todas as agruras da vida. É a força e determinação da Mercedes que deve crescer em cada um de nós.
Quem, como eu, procura incutir nos filhos o gosto pela leitura e pela reflexão filosófica (num contexto em que isso se torna mais difícil, face à concorrência do facilitismo superficial das novas tecnologias), não pode deixar de se rever nas mensagens destes textos Os horizontes que se abriram para a Mercedes estão a fechar-se às novas gerações, que se arriscam a conhecer outro tipo de iliteracia.
Faço votos de que continue e agradeço que me vá mandando as novidades.
Um abraço amigo, também para o Carlos.
Pedro Vaz Patto
Muito obrigada, Ana, Maria Zélia e Pedro, por terem ouvido o apelo que está nas entrelinhas do artigo e do conto. Urge proporcionar às crianças e aos adolescentes a paixão de aprender, numa escola que, por vezes, lhes incute conhecimentos de forma seca e divorciada da vida que os atrai lá fora.
ResponderExcluirUm abraço amigo para os três.
Maria João Oliveira
Um conto que é uma história à procura do sentido dos textos para quem os lê, assim comecei a ler a personagem Mercedes. Com ela, a aldeia, todo o espaço e tempo desvelado, enquanto a cortina era corrida, abrindo a cena “na arena, lugar frágil e sedutor”. Seguimos uma história que continua na idade até ela a levar à cidade, sem fim, como tudo o que não tem idade e se repete. Abraços!!
ResponderExcluirSerá também devido ao "que não tem idade e se repete", que nos vamos encontrando, neste espaço, por exemplo.
ResponderExcluirE os comentários, além de darem sentido à existência do texto, traduzem uma autêntica abertura que "permite" que algo seja dito.
Obrigada, Francisco.
Abraço
Maria João Oliveira