Maria João Oliveira
A dor silenciosa e desmedida da fome, em que muitos vão sobrevivendo, humilhados e escravizados, devia ser um soco no estômago dos responsáveis que dormem de consciência tranquila. Num mundo com automóveis banhados a prata e panelas de cozinha com pegas em ouro e ornamentadas de diamantes, morre de fome e de sede uma criança, a cada seis segundos. “O egoísmo é a causa de todos os males”, como dizia D. Hélder Câmara, com toda a razão. E a fome é uma arma para controlar as populações pobres do mundo, conforme afirmou Giulio Albanese, comboniano que dedicou quase toda a sua vida a África, que trabalha actualmente na Europa como jornalista e que é director da revista "Popoli e Missione". Ele segue os projectos de ajuda ao desenvolvimento, luta, há muito, contra a brutal injustiça da fome e leva-nos a pensar sobre a responsabilidade que também nos cabe, nesta questão. Não podemos ignorar a dimensão universal das nossas acções. Porém, enquanto a fome não afecta a nossa casa, estamos tranquilos... "Há muitas conversas, mas falta a vontade política", afirma ainda o referido jornalista. Na verdade, urge pôr o dedo na ferida, ir ao cerne das questões.
Para cúmulo, as linhas de financiamento internacionais não estão orientadas para o desenvolvimento e quando o financiamento acaba, tudo se agrava ainda mais. A resolução dos problemas não lhes interessa, porque não lhes convém que os países pobres se libertem deste estado de sujeição.
Segundo relatórios da FAO, produzem-se alimentos na Terra que podiam matar a fome a doze biliões de pessoas! Como somos apenas seis biliões e meio, significa isto que a fome não existiria, se houvesse uma distribuição justa. Não há falta de recursos. 1,5% do PIB dos países mais ricos dava para reduzir, anualmente, a fome no mundo a mais de metade! Se os ricos, um dia, acordassem com problemas de consciência, perante a fome e a sede que matam uma criança, a cada seis segundos, muitos milhões de famílias, privadas das condições mínimas de sobrevivência, poderiam adquirir o alimento de que precisam e tudo o que lhes falta, para serem autónomos na sua produção. Se, por exemplo, o multimilionário indiano Mukesh Ambani, sentisse algum peso na consciência, provavelmente não teria gasto mil milhões de euros na construção da sua casa. Uma casa com 27 andares, 37 mil metros quadrados, três heliportos (dentro da cidade), nove elevadores, sala de cinema para 50 pessoas, salão de baile, ginásio, piscina, spa, paredes forradas com LCD’S, jardim, seis andares de garagem para colecção de carros, clássicos e desportivos, etc. E a Índia é um dos sete países onde dois terços da população passa fome. Sim, a culpa não está, apenas, nas alterações climatéricas, ou na superpopulação. A culpa está, sobretudo, no egoísmo desenfreado que grassa no mundo. No egoísmo e numa total ausência de compaixão. A falta de capacidade para se colocar na pele do outro está a levar o Homem a caminhar, para trás, a um ritmo alucinante e dramático. Não é por acaso que Dalai Lama incita políticos a um sentimento de compaixão alargado, visto que as políticas governamentais estão mais voltadas para excluir e matar do que para servir os povos que estão à sua mercê. Abrem caminhos ao lucro fácil da especulação, em vez de tomarem medidas de combate à fome e de acesso à saúde, educação, saneamento, água potável…
Assim, os países ricos continuarão a desperdiçar enormes quantidades de alimentos, todos os meses. Os políticos continuarão a ter, apenas, o objectivo de se fazerem reeleger e de procurar soluções a curto prazo. Quem está a enriquecer, vai continuar a especular nas bolsas e nos mercados mundiais. Na África e na Ásia, multidões esfomeadas continuarão a assaltar os comboios humanitários de ajudas alimentares.
Por conseguinte, é urgente que também a comunidade internacional se empenhe mais no combate ao comércio de armas (legais ou ilegais...), à fuga de capitais dos países pobres, ao tráfico ilegal de matérias-primas preciosas, à corrupção dos governos e empresas multinacionais...
É urgente que, de uma vez por todas, sejam tomadas as medidas necessárias para eliminar a pobreza. Estamos no terceiro milénio e não há anos europeus que erradiquem a pobreza extrema, pelo menos na Europa. Mais de oitenta milhões de europeus vivem abaixo do limiar de pobreza. E, nos continentes mais pobres, morre de fome e de sede uma criança, a cada seis segundos.

Uma realidade diante a qual, minha Amiga, nao podemos ficar inertes. Urge que cada um faça a sua parte, pq. nossos governantes são indiferentes a dor do próximo, e derramam o dinheiro público para\atender seus interesses, e enriquecem cada dia mais- ilicitamente.
ResponderExcluirBravo, por levantar seu brado.
Abrs,nana
Um artigo comovente , um verdade doída que rasga nossa fé nos Homens.[?]
ResponderExcluirParabéns , Maria João, por seu retumbante brado social.
Abrs de Filipa Saanan
Parabéns, Maria João, sempre tão preocupada com o que afeta o ser humano em sua essência, em sua sobrevivência.
ResponderExcluirBjs
Belvedere
A Maria João continua a usar o seu talento literário ao serviço das causas mais urgentes. Esta é uma causa que diz respeito ao primeiro dos direitos humanos (o direito à vida) e às mais elementares exigências de respeito pela dignidade da pessoa humana.
ResponderExcluirAinda recentemente fui alertado por um discurso do Papa Bento XVI à assemblei da FAO, onde se criticava com veemência o facto de os bens alimentares serem objecto de especulação financeira, com o consequente aumento de preços para valores incomportáveis para os mais pobres
Antes de mais, importa vencer a indiferença de quem não sente como próximas as vítimas da fome, assim como a resignação de quem pensa que nada há a fazer Cada um a seu modo, pode fazer alguma coisa para vencer essa indiferença e essa resignação. A Maria João fá-lo desta forma. Que continue assim!
Pedro Vaz Patto.
Sempre que nos deparamos com estes números, contrastes e situações ridículas de riqueza, constatamos seguidamente que outro dos piores males é a indiferença perante esta vergonhosa e horrorosa situação a que chegou a espécie humana.
ResponderExcluirUm texto como este que a Maria João nos brinda tem a capacidade de abanar fortemente a nossa consciência. Mas logo de seguida é preciso a luta diária e constante contra os nossos egoísmos e sensibilizar com todos os meios para um compromisso sério com o nosso próximo, que pode não viver no andar ao lado, mas no hemisfério ao lado e que continua a sofrer as consequências das nossas políticas desastrosas em todas áreas, porque esqueceu completamente o que de mais importante existe: O Ser Humano.
Fernando Castro
30 de julho de 2011
Nana, Filipa, Bel, Pedro e Fernando, muito obrigada pela leitura e pelo incentivo.
ResponderExcluirConfesso que fiquei emocionada ao encontrar aqui comentários de quem luta, há muito, contra a indiferença.
Grata, deixo aqui um abraço para todos.
Maria João Oliveira
A estatística, fica logo a conhecer-se melhor a realidade!... Dizer o quê? A_braços!!
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