Num espaço sem tempo, vou ao encontro de uma Voz que me chama. Sem esta Luz, não é possível um espaço destituído de poder. A mediocridade não suporta a Beleza, tem algemas nos bolsos e põe guizos nas palavras. Guizos que se fazem ouvir como se a Verdade as habitasse. E é aplaudida pela maioria que a segue de olhos vendados.
Procuro, cada vez mais, um outro espaço sem retorno, habitado por esta Luz que me chama. Um espaço onde seja possível a comunicação como troca e participação, um espaço onde a verdade caiba por inteiro e o seu rosto não se deforme num implacável jogo de espelhos.
Ler o poder que está espalhado por toda a parte e se oculta sob as mais variadas máscaras, não é fácil. Gera inquietação e angústia. Ler todos os sinais e à velocidade da luz no vazio, ler os olhos, as mãos, os actos das pessoas, os bastidores, as palavras, a luz, a sombra, tudo o que está para além do espesso véu, cria uma sensação de exílio. No entanto, é imprescindível ler o texto e ser capaz de pagar o preço da leitura.
No momento em que tento escrever esta sede, oiço lá fora, no terraço, um pássaro que me chama todas as tardes, à mesma hora. Como sempre, já me identificou, através da porta de vidro. Não a abro, de imediato, para saborear o seu canto, durante mais tempo. A autenticidade existe, é bela, tem asas. O nó que sinto cá dentro desata-se. Aproximo-me e ele olha-me sem medo. Renova o seu canto, no muro do terraço. Perante a sua habitual dose de trinca de arroz, este reboliço pardalino, estremece de felicidade e pousa no chão. A linguagem deste poema alado é água que me mata a sede.
- Um dia, irei contigo, amigo, à procura de um lugar onde o poder nada possa submeter ao seu domínio. É urgente uma nova realidade, onde a Verdade e a Beleza cativem todos os seres. Seres que poderão ler o texto que está em toda a parte, e descobrir asas de borboleta em vidas amarrotadas que passam despercebidas.
No dia seguinte, ao amanhecer, saio de casa, atravesso a passadeira e começo a caminhar ao encontro do desconhecido. De súbito, oiço passos atrás de mim. E alguém me coloca uma venda nos olhos. Com o coração a bater na garganta, pergunto quem é.
- Não tenhas medo…
A Voz que caminha ao meu lado é uma espécie de Luz que faz recuar a escuridão do medo. É tão suave e calma que me transmite uma estranha sensação de leveza e de liberdade. No entanto, sinto-me confrontada com um enigma.
- Aonde me levas?
- Vem comigo…
Oiço, neste momento, o rastejar de um bicho qualquer sobre folhas secas.
- É uma serpente. Também vai à procura da Luz.
- Da Luz?! E o veneno?
- Por isso mesmo, precisa dela ainda mais…
- Onde estou? Que lugar é este?
- Vais descobri-lo, através dos sons, aromas, sabores, texturas…
Apercebo-me de que os cheiros e os sons da minha cidade começam a ficar distantes. Continuo a caminhar sobre folhas estaladiças. E saboreio um adocicado aroma de framboesas que paira no ar. Sinto que o dia está ensolarado. O silêncio é tão grande e avassalador que posso ouvir um ramo seco soltar-se de uma árvore e cair, de mansinho, no chão. Uma agradável sensação de frescura toma conta de mim. Sinto um rumor de árvores a vibrarem em uníssono. Um estranho odor vem ao meu encontro.
- Segue esse perfume …- diz-me a Voz que me leva.
Obedeço e caminho, inspirando, profundamente, um ar lavado e fresco que me limpa a poeira do cansaço e me ajuda a caminhar em direcção ao desconhecido. Subitamente, oiço o canto de um pássaro que se aproxima e começa a esvoaçar à minha volta. E sinto, no rosto, o roçar macio das pequenas asas do meu amigo. Seria capaz de o identificar entre milhares de aves da sua espécie. Sinto-me invadida por uma sensação de encantamento. O seu canto ilumina os meus passos no escuro, ajuda-me a alcançar o Lugar que me chama… E ele segue também o misterioso odor. A certa altura, oiço uma cascata que parece precipitar-se do alto de um grande rochedo.
- Ainda não chegámos. Vamos… - diz a Voz , ao aperceber-se de que o som da cascata me está a projectar para outra dimensão. Pela mão do olfacto, continuo a caminhar.
- Agora senta-te nesta pedra e…escuta. O que ouves?
- Nada…
- Então ainda não posso libertar-te dessa venda. Escuta, mais uma vez.
De súbito, começo a ouvir um som que parece vir das entranhas da terra. E quanto mais me entrego a este som, mais ele se faz ouvir. Um som que paira acima do tempo. Quero ficar aqui, mesmo de olhos vendados.
- O que se passa? – pergunto, maravilhada. – Não consigo descrever este som.
- Estás a ouvir o som da floresta a crescer, a palpitação da seiva, a vibração das raízes, as asas dentro do casulo… E ouvirás o grão de areia dentro da ostra, a lágrima que se esconde, o grito encapsulado, o espaço destituído de poder, a ausência como fio que tece a escrita… Poderás ler novos mundos, lugares difíceis de nomear e de decifrar. E o texto surgirá como um efeito profundo desta descoberta. Estes sons existem, mas são… inaudíveis. Sim, estás a ouvir o inaudível.
Neste momento, o pássaro canta como quem celebra um acontecimento. Canta como quem tem algo a dizer. E leva no seu bico a minha venda preta.
Maria João Oliveira

Da necessidade que sinto de adentrar a alma das coisas, nasce, por vezes, um texto. Este é um deles. E a Beleza da imagem, que o ilustra, tocou-me muito. Obrigada, Ana Merij!
ResponderExcluirUm abraço
Maria João Oliveira
Amiga, eu que agradeço. Tinha este texto em meus guardados mais preciosos: é simplesmente divinal. Não resisiti, compartilhei.
ResponderExcluirBjs, nanamerij
Uma escritora feita. Perfeita.
ResponderExcluirUm bj da sua leitora
Belvedere
Amiga
ResponderExcluirNa agitação dos afazeres diários, a leitura do teu texto levou-me a parar e a imaginar-me na floresta a ser acariciado pelas penas do teu amigo pássaro. Consegui ouvir os vário sons descritos......que dom Maria João!!! Apesar das dificuldades que enfrentas, a poesia sobrepõe-se e consegue iluminar os dias de quem te lê e se deixa envolver pela musicalidade dos teus textos. Obrigado.
Beijos
CarlosMagalhães de Carvalho-OA
Leiria
Procurar “um espaço destituído de poder”, é procurar a utopia da Liberdade, em Utopia ou, o melhor é dizê-lo, na Liberdade da leitura que este texto profusamente oferece.
ResponderExcluirPrincipalmente se começamos por ver ser oferecido esse impossível, sobre a forma de ideia verbalizada. De imediato “dialectizada” pela dialéctica de cada leitor com a obra, durante a ligação escrita/leitura, autor/leitor, num professo autónomo e autonómico, que tornará cada comentário na presença do outro, num outro, tanto quanto possível, nu. Sem exílio, com o apoio do texto, temos, como os pássaros em voo, o apoio do ar. O mais certo… é ser conduzidos ao Paraíso. Abraços!!
Nesta incessante busca de "um espaço destituído de poder", encontro, por vezes, uma gratificante abertura ao que é "dito" e não é "dito" no texto. Graças a esta "dialéctica de cada leitor com a obra", é possível uma fusão criativa de horizontes, uma alteração significativa que dá sentido a este diálogo com o texto e que pode acontecer mesmo quando se fica em silêncio, obviamente.
ResponderExcluirNana, Bel, Carlos e Francisco, muito obrigada!
Um abraço para todos.
Maria João Oliveira