4 de setembro de 2011

Já reparaste nesta palavra? Contém tudo. Nada fica fora dela



O EREMITA


                                                                                                       Maria João Oliveira


        Samuel perseguia, há muito, um deus insaciável que provocava tempestades em toda a parte. Sabia que poucos estavam a salvo, mas, geralmente, as suas vítimas não o reconheciam, dentro de si mesmas. A causa dos seus tsunamis era sempre uma outra onda provocada por sismos gerados nas zonas de subducção dos outros. E o dragão continuava a fazer das suas, em todos os campos da vida humana. Se pudesse, Samuel dissecava aquele deus, tão venerado nos seus  altares. Não era um pesquisador cerebral, mas não estava de braços cruzados, no seu solitário monte caiado de branco. O que lhe doía mais eram as lágrimas das crianças e os soluços dos velhos, no meio dos escombros.
        - Foi para isto que o cérebro do homem triplicou, há mais de dois milhões de anos? –
-pensava, perplexo. Aquele deus tinha instintos de posse tão ferozes que tudo lhe pertencia. Até os louros  do cortiço e do mel dos outros. Porém, o cheiro do rosmaninho nunca esteve ao seu alcance. Só as abelhas o conheciam.
        Chamavam-lhe o “eremita”, por viver sozinho, naquele monte isolado, desde que se aposentara. Por vezes, lembrava-se do seu laboratório de análises clínicas, mas estava tão cansado daquele deus, que era urgente viver em contacto com a Natureza e estar atento a todas as suas manifestações. Os animais faziam parte da sua vida como companheiros e símbolo de tudo o que escasseava no mundo dos homens. O poder de comunicação das abelhas, por exemplo, fascinava-o e fazia-o pensar. Desejava um mundo em que os homens exercessem tal poder e o transformassem em néctar, para alimento de todos.
      Porém, devido às investidas subterrâneas do ego, o diálogo não era possível, por mais que ele lutasse contra tamanha prepotência. E, um dia, a separação foi inevitável. Esticando, energicamente, os braços, Júlia, a mulher que ele amava, dissera-lhe que preferia viver sozinha, num hotel qualquer. De costas para a porta do quarto, onde Samuel estava, perplexo, fez as malas, num ápice, sem reparar no silêncio dele. Entretanto, alguns amigos, que também tinham entronizado aquele deus, sentiam-se bem acompanhados e permitiram que ele devorasse, até à exaustão, a luz do afecto e da dádiva.
        Contudo, ao olhar nos olhos o cão que estava a seu lado, Samuel sentiu que a comunicação era possível. Pegou nele ao colo e abraçou-o longamente, com a sensação de que o Tempo tinha parado naquele instante. Respirando de alívio, olhou à sua volta. E sentiu que a  pulsação do seu campo de girassóis era uma espécie de mapa, na sua vida. Mesmo que o sol se escondesse, atrás de uma nuvem, voltavam-se para ele, seguiam sempre o seu giro no céu.
       A água do rio estava tão clara e transparente que se via o fundo. Eram também assim os olhos dos animais. E esta descoberta dera-lhe uma sensação de plenitude que transformara o seu grito em silêncio. Um silêncio que tecia, aos poucos, a paz que lhe faltava. Naquele lugar, Samuel sentia que tudo era único e se renovava a cada instante. Dentro de si, renasciam ramos impacientes que tinham secado, há muito. O frio que lhe rachava a alma, morria na brisa morna daquele monte. E a dança das suas abelhas, em frente da colmeia, cicatrizavam as suas feridas, aos poucos.
        - Por isso, é que vocês são o símbolo da comunicação… – murmurou, com uma lágrima a soltar-se das pálpebras. Dançando, em círculo, as abelhas colectoras de néctar comunicavam às companheiras a descoberta de um girassol especial, ou de uma árvore florida e informavam-nas da direcção e da distância em que se encontravam os seus tesouros. Ele sabia que, através de sons e de cheiros, as abelhas também comunicavam às outras, a presença de água, de inimigos ou de outros locais de nidificação… A certa altura, Samuel sentiu que aquela tarde no monte entrava em si, como um navio a largar do cais.
        - Ah, se a Júlia estivesse aqui… - disse,  passando a mão, ligeiramente trémula, pelos seus cabelos grisalhos. – Mas ele sabia que não tinham o poder de comunicação das abelhas, a sua harmonia e disciplina, o seu espírito de doação, o seu desapego… Depois de uma vida de trabalho árduo, elas ofereciam  a colmeia, repleta de alimento. E eles? O que tinham feito das suas vidas? Não tinham conseguido fabricar o seu próprio “alimento”, não voaram juntos como os gansos, nem puderam, como os patos da sua herdade, esquecer tudo, batendo as asas depois da briga.
        Naquele momento, o cão saltou-lhe para o colo e lambeu-lhe o rosto.
        - Sim, parece que hoje estou um pouco triste, Zoya… Olha, amigo, está a anoitecer!
        Uma forte rajada de vento levantou-se, naquele instante, e um grande clarão rasgou aquele morno fim de tarde.
        - Vamos para casa, Zoya. Começou a chover. Ah, como eu gosto deste cheirinho a terra  molhada! Lava-me a alma, sabes?

        Na manhã seguinte, Samuel acordou sobressaltado. Zoya chamava-o, ladrando, freneticamente, à porta do quarto.
        - O que se passa, amigo?! Ouviste passos?!...
        Saltou da cama, abriu a janela, num ápice, mas não viu ninguém. Os pássaros chilreavam, à volta da casa. O rumor das árvores e a luz do amanhecer desafiavam-no, através da janela. Tinha uma manhã luminosa de verão, à sua espera. Despiu, rapidamente, o pijama, tomou banho, fez um sumo de maçã, devorou uma fatia de pão integral com mel e saiu para o campo, de T-shirt branca e calções de ganga. Queria sentir todos os sons, cores e aromas daquela manhã. Zoya acompanhava-o, dando saltos de prazer.
        - Isto é sublime! – exclamou Samuel, trocando com o seu companheiro um olhar de entendimento.  As suas operárias, já estavam a “marcar o ponto” nas flores, com as suas belas cestas de pólen. Os girassóis ondulavam, suavemente, com a brisa da manhã. De súbito, viu alguns deles violentamente agitados.
        - Girassóis com gente dentro?!...
        Encheu o peito de ar como se estivesse na iminência de ficar debaixo de água. Zoya começou a ladrar, desalmadamente, correndo em direcção ao campo de girassóis.
       -Quieto, Zoya! Volta aqui!
       O animal obedeceu, caminhando a seu lado, ofegante, com a língua de fora e a olhá-
-lo como se conhecesse todos os seus segredos.
        - Tem calma, amigo… Tem calma…
        E, naquele momento, surgiu, no meio do campo, uma mulher alta, de grandes olhos cor de avelã, rosto oval, lábios muito vermelhos e cabelos ligeiramente grisalhos, revoltos, cobertos de folhas secas. Com um sorriso molhado de lágrimas e um vestido branco a ondear em torno do seu corpo esbelto, oferecia a sua beleza madura à luz do monte.
       - Júlia!...
       - Samuel!...
        Abraçaram-se e beijaram-se com a paixão de muitos anos de espera. E Júlia apercebeu-se de que os anos não tinham alterado o brilho dos seus penetrantes olhos verdes.
       - A marca do teu cheiro esteve comigo estes anos todos – disse, abraçando-o, de novo, com a dádiva dos seus seios, ainda firmes.
       -  Estava à tua espera,  sabes?  Mas o meu cabelo mudou de cor e tu não vinhas. Agora… convido-te a ser livre, minha querida! – exclamou ele, segurando-lhe o queixo com o indicador e o polegar. -  Agora já não te encontro só dentro de mim. Ah, a tua mão na minha! Tu estás aqui! Respira comigo este ar limpo, Júlia!
       - Fizeste-me esse convite, há muitos anos, mas eu não te ouvi, Samuel… Sabes como o meu  ego desenfreado me escravizava… E eu estava sempre pronta a servi-lo.
       - Sim, a nossa vida, a dois, era uma espécie de livro, em que só se podia ler o título…- riu Samuel, estendendo-lhe os braços.
       - E eu mergulhava, de cabeça, nas minhas certezas absolutas e não queria de lá sair! Agora quero vigiar os meus impulsos. Sou uma lagarta que quer ser borboleta! – riu ela, com um certo  nervosismo.
       - O que importa é que tu estás aqui… - respondeu Samuel, puxando-a para si, pela cintura.
       - Olha como o teu amigo Zoya salta e brinca com as maçãs caídas no chão! – disse Júlia, com os olhos húmidos de ternura.
       - Ele já te conquistou! Quem é que lhe resiste?
       - E o Zoya agradece! Vês como está o meu vestido branco? – exclamou ela, feliz e corada como uma romã -  Ah, sabes uma coisa? Na capital, cheguei a esquecer-me do silêncio. Fumava muito e andava sempre tensa e descontrolada. Agora, venho pedir à natureza um pouco da sua capacidade de se regenerar. Quero ouvir o ruído das gotas de água a caírem das rosas. Aquelas gotas de que tu me falavas, lembras-te?– disse Júlia, saboreando as várias tonalidades de verde dos seus olhos,  das  árvores e  dos campos.
       - Se lembro… Eu, nessa altura, já beijava este silêncio na tua boca.
       - Mas os meus olhos não viam nada. Estavam sempre ocupados com outra coisa…
       -  Sim, eu sei, mas… como descobriste o meu refúgio?
       - Conheço o antigo proprietário do monte. E, na aldeia, todos conhecem o “eremita”. Gostam de ti, e quando passei por aqui, ontem, indicaram-me o caminho e encheram o carro de melões, queijos, beldroegas, poejos... para ti!
       - Ontem?! Onde estavas, Júlia, quando começou a chover? – inquiriu ele, com ar preocupado.
       - Já estava numa pensão da vila mais próxima…
        - E o teu carro?
        - Está lá em baixo, junto do portão. Como ontem, na hora da sesta, o encontrei aberto, foi fácil entrar, sem tu te aperceberes de nada.  Já conheço a tua herdade, Samuel! Vi pessegueiros, melancias, abóboras, oliveiras, sobreiros… Ah, e os patos no tanque!  E a euforia das cigarras! Que beleza! Quando te avistei, escondi-me atrás de um sobreiro. Não tive forças para me aproximar… Desejei que os girassóis te explicassem, por mim, o meu regresso. O Zoya estava tão entretido  contigo, que nem me viu. – disse ela, com o sorriso do primeiro dia, o olhar a demorar-se nos  olhos dele, as mãos a tocarem-se, a sentirem a pele um do outro…
       -  Não precisas de explicar nada, Júlia. Vamos para casa! – murmurou Samuel,  abraçando-a, como se fosse pela última vez, e  a deixar entrar nele o calor da planície,  a sentir os seios dela, de encontro ao peito e aquele perfume que ainda o entontecia…
       -  Agora sei  porque  me tenho esquecido de fechar o portão.  Por isso, acordei ao som dos teus passos. Eu estava a dormir e a natureza já a fazer a festa. Tu e ela!
       -  Gosto do teu monte, caiado de branco, com portas e janelas debruadas a azul…
       - O nosso monte, Júlia! Vai ser o nosso mundo! Já reparaste nesta palavra? Contém tudo. Nada fica fora dela. Aqui estarás mais perto do sol. E eu quero viver neste monte como árvore que sou, até que os meus ramos soltem, para sempre, todas as folhas.


                                          Metamorfose




                              No silêncio, havia uma porta
                              mas o deus que uivava dentro dela
                              exigia louros, monumentos
                              e, lá fora, a ovação era certa

                              Nas veias dele, ficou a latejar
                              uma escuridão de casa desabitada
                              até  deixar de obedecer
                              às margens que o continham

                              E subiu ao monte
                              como planta sofrida
                              de seiva petrificada
                              que se ergue do asfalto
                              para  criar raízes na planície
                              onde as noites são brancas
                              e o silêncio se estende debaixo da lua
                              onde a água do monte
                              apaga o incêndio de Persépolis
                              onde o Tempo não tem cadastro
                              e as mãos se tornam solares.
                              

8 comentários:

  1. ...quando os homens não conseguem comunicar....os animais estão sempre disponíveis....conto diferente aos que nos habituaste mas sem perder o fio da sensibilidade das tuas personagens.....
    um bom conto para digerir ao longo do dia...."...nosso....contém tudo..." - vamos insistir na aprendizagem do amor, substituir o meu pelo nosso.......Obrigado Maria João

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  2. Gostaria de saber a quem devo este belo comentário.
    Por conseguinte, aguardo o teu regresso a este espaço.
    Grata, envio um abraço.

    Maria João Oliveira

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  3. Mais uma vez vc nos traz o melhor .Obrigada por dividir todas essas letras com seus leitores.
    Belvedere

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  4. Desculpa. Esqueci-me de dizer que sou o Carlos Magalhães de Carvalho de Leiria e que em 5.09.2011 leu o teu lindo e ousado conto.

    Beijos
    Carlos

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  5. O conto deixa-me a contas com alguma dificuldade de obter a soma das suas partes, criando-me dificuldades logo iniciais «as suas vítimas não o reconheciam», andei atrás e à frente... Depois entra num diálogo, numa relação, há o título, quando acaba termina por certo pediria nova releitura. Detenho-me no poema, um produto do Eremita? Não lhe será necessário qualquer enredo extra, «o Tempo não tem cadastro/ e as mãos se tornam solares» basta um final belíssimo para voltar ao inicio bem próximo... onde, «o deus que uivava dentro dela/ exigia louros»! Procurar ela e ele… vou deixar ele e ela, Assim & Mim, acontecer em mim. Parabéns pela inspiração! Bjs

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  6. Francisco:
    Raramente, leio, apenas uma vez, um texto, porque uma nova leitura poderá ampliar o meu campo de visão, levar-me à reflexão, mudar os meus pontos de vista...
    Às vezes, ler, para mim, é como viajar de comboio. Ora penso que estou a ir para trás, ora penso que estou a ir para a frente, até que, por fim, descubro a direcção certa. :0)

    Grata pelos vossos comentários, envio um abraço para todos.
    Maria João Oliveira

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  7. Manuel

    o texto é muito actual e interessante de ler, porque contém aspectos muito importantes da nossa sociedade como é o caso do valor da amizade e da solidariedade. Continue a escrever com essa clareza, porque faz falta criar laços de amizade entre as pessoas e além disso também faz falta escritores em Portugal como você.



    Um grande beijo e boas leituras

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  8. Julgo que és o Manuel Garcia...
    Amigo, obrigada pelo comentário e pelo interesse que manifestaste em conhecer a revista Literacia.
    Manel, Portugal tem excelentes escritores, como sabes. Eu apenas tenho paixão pela escrits. Não podia viver sem ela. Só isso.
    Se nos for possível, no próximo domingo, visitaremos o teu belo monte alentejano. Girassóis acho que não tens, mas tens poejos e outras maravilhas que os teus Pais nos ofereceram, em Abril. :0)
    Um grande abraço
    Maria João Oliveira

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