18 de julho de 2011

Sempre desejara a imortalidade...

Aqueles olhos



                                                                                                       Maria João Oliveira


        Sentia-se encurralado numa cápsula cada vez mais estreita que acabaria por asfixiá-lo, se não blindasse a alma com urgência. Queria entrar no mistério daquela inquietação, compreendê-lo e dominá-lo. Queria adentrar as zonas medulares do desconhecido e  navegar, serenamente, nas suas águas. Porém, a raiva, o vazio, o grito tinham-se instalado na sua vida, sem pedir licença. Mas ele queria lá saber daqueles olhos! Os comprimidos que lançava à garganta haviam de dissolver o vazio que nascera também de uma implacável análise da sua própria vida e das suas próprias escolhas. Um vazio que crescia e avançava sobre si como um olho vigilante de prefeito. E aqueles olhos tinham-no lançado num porão, onde só ele ouvia o seu próprio clamor de náufrago. Seria mais fácil se virasse sapo, até porque os seus olhos claros e os seus cabelos de prata ainda podiam atrair princesas. Também não se importava que Circe o transformasse num porco. Talvez não se sentisse tão desabitado por dentro. As suas certezas absolutas eram estátuas de neve a derreterem-se ao sol. Uma estranha angústia tangia-lhe os nervos e corria dentro dele como um rio cheio de areia e detritos, mas a sua teimosia era uma espécie de cobra de duas cabeças que cavava largos túneis e não queria largar a pele.
       Ainda sentia os passos de Laura, nos corredores da mansão, como se ela fosse ali buscar o que a morte lhes tinha roubado. Uivava ainda dentro dele uma vontade louca de a ter nos braços, de novo, mas aqueles olhos, que o olhavam no escuro, estavam a mudar o rumo dos seus próprios pesadelos. Eram como luas suspensas sobre as suas noites de insónia. 
      Sempre desejara a imortalidade, mas tudo o que tinha feito, apenas por si, iria morrer com ele. A sua mente sempre tinha vivido dentro dos números e a alma num espesso nevoeiro que tornava a beleza invisível. No entanto, começava a sentir-se aprisionado, nas suas próprias cadeiras de repouso, onde sempre gostara de variar a postura. Perante aqueles olhos, a mansão Fleur de Lys, que estava à venda em Beverly Hills, não tinha qualquer importância. Era estranho, mas já não estava preocupado com a crise dos mercados internacionais. A luz que faiscava nos cristais provocava-lhe náuseas. E, ao ver os seus empregados, de nariz altivo, com o champanhe gelado em baldes de prata, sentia vontade de rir. Estava cansado da solicitude do seu sobrinho Luís e da mulher dele, dos convites, das visitas, dos preciosos quadros, das porcelanas, das peças de antiquário, dos empregados, das festas com flashes de revistas.  Sempre fora belo, poderoso, invencível. Era impensável que um Poeta inquieto lhe pudesse roubar o sono. Contudo, o gosto de viver estava já em decomposição. Ah, como tinha sido estúpido, ao transformar sonhos em ouro e prata!  E agora o que é que a vida lhe podia dar, se ele não conseguia pôr nada de si próprio no que fazia? Sentia que já não tinha deveres, porque os seus desejos estavam quase extintos. Começara a sentir o rumor da solidão. 

      -  Meu Deus, como está pálido, Dr. Castro! – exclamou a velha governanta, desenhando o sinal da cruz sobre a testa. – Há muito que anda cansado e deprimido. O seu sobrinho está preocupado consigo e tem razão.
      -  Levem o tabuleiro. Não quero mais chá. Senti náuseas e vertigens, mas já estou melhor. Vou à pastelaria agora mesmo. Diz ao motorista que leve o carro para o portão. Vou descer, Amélia.
      E, Nuno de Melo e Castro, sem olhar as cartas que se amontoavam na salva de prata, nem as revistas e jornais que se “preocupavam” com a sua saúde, saiu do quarto, murmurando: ou agora, ou nunca!...
     Alguns minutos depois, encontrava-se numa pastelaria tradicional, fundada em 1925, que  era  um ponto de referência para turistas e habitantes da cidade. Os seus olhos claros, ainda penetrantes, e a sua enorme estatura faziam estremecer lábios pintados de mulheres mal amadas que o espreitavam, através de espelhos que, obviamente, não reflectiam, apenas, o bulício daquela tarde de verão…
      Entretanto, aproximou-se da sua mesa, um rapaz de casaco branco e bandeja debaixo do braço.  
      - O que deseja hoje, Dr. Castro?
      - Quero que tragas aquele rapaz para a minha mesa.
      E apontou para o nariz esborrachado de uma criança que o olhava, através do vidro da montra. 
      - Mas… Dr. Castro… a gerência não admite…
      - Não admite o quê?!
      - É… uma criança de rua. An...da des…calça... está suja… Não… não po…pode entrar aqui… - gaguejou o rapaz.
      - Vai buscá-la! – ordenou Nuno de Melo e Castro mordendo, já irritado, o lábio inferior.
      - Ainda perco o emprego…
      - Não te preocupes. Tenho uma vaga numa empresa.
      Venâncio acabou por obedecer, mas a criança, aterrada e insegura, escapou-se das suas mãos e desapareceu, ofegante, nas curvas da rua. Uma rua limpa que cheirava a bolos caseiros e a pão feito no forno.
      - Bem diz o meu patrão que aquele puto é um barco encalhado sem nome nem destino… - disse o rapaz, entre dentes, com as mãos ainda trémulas.
      Momentos depois, ouvia-se, na rua, a sirene de uma ambulância. Nuno de Melo e Castro era transportado de urgência para o Hospital Central da cidade. 

      - Porque estou aqui?! Não gosto de hospitais! São horríveis estes espaços, onde é sempre “dia”, sabe?  Parece até que o dia se detém, fixo, estático… Porque me trouxeram para aqui?! - questionou, franzindo a testa coberta de suor.
      - Perdeu os sentidos, numa pastelaria, Dr. Castro! E já tinha dito a um empregado que estava com náuseas, dores de cabeça e vertigens. Esteve na sala de reanimação e agora veio para este quarto – respondeu uma jovem médica, ajeitando, com um sorriso, a garrafa de soro. 
      Naquele momento, entrou no quarto, com os olhos arregalados de espanto, uma enfermeira:
      - Está na urgência uma criança que chorou muito e disse que é neto do Dr. Castro! Feriu um pé num caco de vidro…
     A  força motriz daquela notícia fê-lo dar um salto na cama.
     - Como ?! Ele está ferido?
     - Cuidado com o soro, Dr. Castro!
     - Tire-me isso, enfermeira! – ordenou o doente, num tom agastado. – Eu já estou bem. Alguém tem de me dar alta.
     - Mas, Dr. Castro…
     - Não estou com sondas nem a respirar por tubos metidos no pescoço, pois não?! Se eu não tivesse desmaiado, ninguém me convencia... – reagiu, lançando-lhe um olhar severo.
     - Gertrudes, não devia ter dito nada! - repreendeu a médica. – Mas, afinal, quem é essa criança?
     - É um menino de rua e há tantos nesta cidade, infelizmente…- respondeu a enfermeira, em voz baixa, enquanto  fechava,  um pouco, a persiana, para o sol não perturbar o doente. – Diz que se chama João…
     - Quero ver já essa criança!
     - Não é fácil, Dr. Castro. Estão a dar-lhe banho e comida. 
      - Claro, mas depois quero vê-la. Essa criança virou a minha vida do avesso, mesmo à distância, percebem?
      De súbito, alguém bateu à porta do quarto. E um enfermeiro entrou com uma criança pela mão. 
      - Com licença. Tive de o trazer. Fez um berreiro danado. Sabe o nome do doente e só se calou quando lhe prometi que o trazia aqui, depois de tomar banho! – exclamou o enfermeiro, alisando os cabelos louros da criança. Com o pé direito envolvido em ligaduras e os lábios a tremer, ela aproximou-se da cama, a coxear, um pouco. E, finalmente, olharam-se, sentindo que ambos estavam do mesmo lado da solidão.
      - Não quero que morras, avô…
      Com a felicidade a brilhar-lhe no rosto lívido, o Dr. Castro passou as costas da mão sobre as lágrimas da criança.
       Naquele momento, médica e enfermeiros afastaram-se, discretamente, da cama, e aproximaram-se da janela.
      - O telefone não pára de tocar… Fazem perguntas a que não sei responder…- avisou a telefonista, assomando a cabeça.
       – Vou já.
          E o enfermeiro saiu, naquele instante. 
       - Avô, tenho um segredo…- murmurou o João, assoando o nariz,  ruidosamente,  e com o coração a bater na garganta. – Tenho fome, muitas vezes, e apanho bué de porrada. Os grandes batem-me muito. Queria atirar-me da ponte, mas já não tenho vontade de morrer! – desabafou, com um sorriso aflito e desdentado,  à procura de bolsos, nos largos calções de ganga que lhe tinham vestido no hospital.
      -  Ainda bem, meu herói! Como chegaste aqui?! 
      - Vim atrás da ambulância. 
      Uma boleia tinha-o ajudado a vencer a linha recta que separava a pastelaria, do Hospital e ele vivera essa distância como uma espécie de filme projectado a alta velocidade sobre a sua cabeça.
      - Tive tanto medo que morresses, avô… - E escondeu o rosto nas mãos em concha.
      - A minha casa é grande demais para mim, João. Queres fazer-me companhia?  
      A sua voz tremia. E estendeu a mão à criança sobre a dobra do lençol.     
      - Fixe, avô! Mas… porque estás a chorar?
      - Dizem que quando se envelhece, chora-se mais e, às vezes, só paramos quando adormecemos...

      Alguns dias depois, o afecto dava início à sua obra. E, aos poucos, transformou uma mansão de luxo numa feliz casa materna. Quando um jornalista lhe perguntou porque tinham acabado as grandes festas na mansão Melo e Castro, o empresário disse, sem rodeios, que se tinha cansado de dar comida a quem não tem fome.
      A governanta era já uma avó perfeita que sentava o João no colo e lhe ensinava canções e lhe contava  histórias… Quando o tempo começava a faltar, dizia-lhe:
      - E agora p´ra não acabar mal… ponho ponto final.
      Um dos empregados gostava de decorar poemas e a criança ouvia-os, batia palmas, sentado nos seus joelhos.
      - Zé, quero mais. 
      - Não queres jogar agora no computador , deitar-te na relva, ou…?
      - Não, quero mais poemas!  E histórias! Vá, conta…
      - O teu riso aquece-me…- dizia Nuno de  Melo e Castro, com os braços do João à volta do seu pescoço.
      - Não gosto do seu sobrinho Luís…
      - Porquê, João?
      - Tem olhos de lobo…


     - Não me deixem morrer… Agora preciso de tempo…- implorava Nuno de Melo e Castro, sete meses depois, na clínica em que fora internado de urgência.
      Contudo, no dia seguinte, morria, vítima de uma intoxicação subaguda arsenical. 
      Pouco depois, Luís de Melo e Castro era detido, no momento em que tentava fugir para o estrangeiro, com a mulher e duas malas inglesas de pele.   

     

Um comentário:

  1. Como leitora e grande admiradora da escritora Maria João quero deixar aqui meus parabéns pela forma com que conduz sua escrita. Perfeita.
    Bjs
    Belvedere

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